HÁ DEZ ANOS, uma coluna de
fumaça no centro de Patos de Minas quebra a tranquila rotina da população. A
princípio, mesmo para espectadores que se aglomeram em volta do quarteirão, o
foco do incêndio não está bem definido. Mas de outro ponto da cidade, ao olhar
naquela direção e avistar a fumaça, o primeiro nome que vem à mente do
fotógrafo José Marcos Gonçalves é o do Cine Riviera.
Devido aos eventos de finais
de ano – como formaturas e espetáculos – dezembro era o mês em que o Riviera
mais recebia público. Duas noites antes do desastre, a casa lotou durante um
festival de dança, quando os riscos de uma falha no sistema elétrico (provável
causa do acidente) é muito maior. E o dia todo, um domingo, ali permaneceram
mais de mil pessoas ocupadas com os ensaios, muitas das quais eram crianças.
Mas no 15 de dezembro apenas
três pessoas se encontravam no estabelecimento e nenhuma ficou ferida.
Os bombeiros agem rapidamente.
A frente do prédio e a cabine de projeção foram salvas. Todo o restante, porém,
– teto e paredes (revestidos de matéria altamente inflamável), palco, cortinas,
carpete e poltronas – é inteiramente
consumido pelas chamas em menos de uma hora.
Fotógrafo desde os doze anos,
José Marcos frequentava o cinema de três a quatro vezes por semana, em geral
após o trabalho. Como todo bom cinéfilo, apreciava não apenas os filmes, mas o
ambiente, a acústica, a sala de bate-papo, o tradicional passeio na sorveteria antes
das matinês de domingo e a ida à lanchonete na volta pra casa.
Chegava a assistir várias
vezes ao mesmo filme. Uma das poucas exceções de que se lembra fora um épico, algo
como “César, o rei de Roma”, cuja exibição durara seis horas, com intervalo de
duas em duas. Mas
assistira a "E o vento levou..." por QUATRO DIAS seguidos, mesmo
sendo cerca de quatro horas por sessão. Afinal, películas em cores eram uma
grande novidade.
Com o advento de
videocassetes, DVDs e a expansão da internet e da pirataria, os cinemas foram
perdendo espaço. As salas que não são fechadas ficam mais compactas. Subsistem
encasteladas em locais onde há grande fluxo de pessoas, como shopping centers,
sendo apenas mais um de seus itens de consumo.
O fenômeno é mundial. Nas
capitais, os cinemas são vendidos e os imóveis transformados em templos
religiosos. Junto com eles se foi a profissão de lanterninha e talvez uma época
de mais romantismo, inocência e calor humano.
manoel@patoshoje.com.br

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