sábado, 31 de março de 2018

O apagar das luzes - I




HÁ DEZ ANOS, uma coluna de fumaça no centro de Patos de Minas quebra a tranquila rotina da população. A princípio, mesmo para espectadores que se aglomeram em volta do quarteirão, o foco do incêndio não está bem definido. Mas de outro ponto da cidade, ao olhar naquela direção e avistar a fumaça, o primeiro nome que vem à mente do fotógrafo José Marcos Gonçalves é o do Cine Riviera.

Devido aos eventos de finais de ano – como formaturas e espetáculos – dezembro era o mês em que o Riviera mais recebia público. Duas noites antes do desastre, a casa lotou durante um festival de dança, quando os riscos de uma falha no sistema elétrico (provável causa do acidente) é muito maior. E o dia todo, um domingo, ali permaneceram mais de mil pessoas ocupadas com os ensaios, muitas das quais eram crianças.

Mas no 15 de dezembro apenas três pessoas se encontravam no estabelecimento e nenhuma ficou ferida.

Os bombeiros agem rapidamente. A frente do prédio e a cabine de projeção foram salvas. Todo o restante, porém, – teto e paredes (revestidos de matéria altamente inflamável), palco, cortinas, carpete e poltronas –  é inteiramente consumido pelas chamas em menos de uma hora. 

Fotógrafo desde os doze anos, José Marcos frequentava o cinema de três a quatro vezes por semana, em geral após o trabalho. Como todo bom cinéfilo, apreciava não apenas os filmes, mas o ambiente, a acústica, a sala de bate-papo, o tradicional passeio na sorveteria antes das matinês de domingo e a ida à lanchonete na volta pra casa.

Chegava a assistir várias vezes ao mesmo filme. Uma das poucas exceções de que se lembra fora um épico, algo como “César, o rei de Roma”, cuja exibição durara seis horas, com intervalo de duas em duas. Mas assistira a "E o vento levou..." por QUATRO DIAS seguidos, mesmo sendo cerca de quatro horas por sessão. Afinal, películas em cores eram uma grande novidade.

Com o advento de videocassetes, DVDs e a expansão da internet e da pirataria, os cinemas foram perdendo espaço. As salas que não são fechadas ficam mais compactas. Subsistem encasteladas em locais onde há grande fluxo de pessoas, como shopping centers, sendo apenas mais um de seus itens de consumo.

O fenômeno é mundial. Nas capitais, os cinemas são vendidos e os imóveis transformados em templos religiosos. Junto com eles se foi a profissão de lanterninha e talvez uma época de mais romantismo, inocência e calor humano.

manoel@patoshoje.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pela participação!