INSTINTIVAMENTE, ENY Rodrigues largou o que estava fazendo, pegou a bicicleta e partiu rumo ao
Centro. Duas de suas filhas trabalhavam próximo ao Riviera e corria o temor de
que o fogo se alastrasse para as lojas.
A professora encontrou as
filhas em segurança, mas viu muitas pessoas desesperadas na porta do cinema e
pensou no pior. Ficou surpresa ao descobrir que não choravam a perda de vidas
humanas. O sentimento era em relação ao próprio cinema, que fazia parte de suas
vidas e cuja existência significava muito para a comunidade.
O engenheiro Caio César
Gonçalves, à época diretor da Associação Comercial (Acipatos), e Eugênio Melo
Ribeiro, então presidente da Fundação Cultural do Alto Paranaíba (Fucap), encabeçaram
um ambicioso plano de transformação do Riviera em centro de lazer,
entretenimento e atividades culturais. Com o projeto em mãos, procuraram o
poder público local e a iniciativa privada. Entretanto, estes manifestaram não
dispor de capital para levar adiante a idéia.
Anda assim, Eugênio sonhava comprar
o local com recursos das leis de incentivo à cultura e transformá-lo num espaço
cultural, além de compensar os seus proprietários, que mantinham o cinema muito
mais por amor à arte do que por interesse comercial. “Mas, ao contrário do que
diz a música, o sonho acabou”, diz Eugênio, que atravessou várias madrugadas no
Riviera montando e desmontando iluminação e cenários ao som dos bailes do Patos
Social, enquanto, nos bastidores, seus filhos dormiam em colchões improvisados
sobre caixas de refletores.
"Nós éramos uma família
e ali era a nossa casa", confirma César Roberto Ferreira, referindo-se ao
local em que trabalhava desde 1980 e ao qual dedicava a maior parte do seu
tempo.
Lembra-se, emocionado, da
chegada da Semana da Criança, quando o Riviera ficava aberto o dia todo e o
passe era livre para as escolas. Professoras acompanhavam os alunos – para muitos,
a única oportunidade que tiveram na vida de entrar em um cinema. "O
incêndio destruiu sonhos de muita gente", lamenta César.
Em seus anos de ouro, o
Riviera estava entre as maiores e mais modernas casas do gênero do interior. O
projeto e a tecnologia de ponta foram trazidos da Europa pelo líder político
Virmondes Afonso de Castro, que também buscou em outros Estados construtoras
à altura do empreendimento. Integrantes da orquestra sinfônica do Palácio das
Artes, de Belo Horizonte, ficaram maravilhados com o local, onde também se
apresentaram personalidades como Roberto Carlos, Paulo Autran e Arthur Moreira
Lima.
Aliás, Patos de Minas é sui generis também neste quesito:
enquanto muitas cidades do mesmo porte nem sequer tinham uma sala, Patos chegou a
comportar, durante quase uma década – nos anos 70s – três grandes cines ao
mesmo tempo: Riviera, Garza e Olinta.
manoel@patoshoje.com.br
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