sábado, 31 de março de 2018

O apagar das luzes - II




INSTINTIVAMENTE, ENY Rodrigues largou o que estava fazendo, pegou a bicicleta e partiu rumo ao Centro. Duas de suas filhas trabalhavam próximo ao Riviera e corria o temor de que o fogo se alastrasse para as lojas.

A professora encontrou as filhas em segurança, mas viu muitas pessoas desesperadas na porta do cinema e pensou no pior. Ficou surpresa ao descobrir que não choravam a perda de vidas humanas. O sentimento era em relação ao próprio cinema, que fazia parte de suas vidas e cuja existência significava muito para a comunidade.

O engenheiro Caio César Gonçalves, à época diretor da Associação Comercial (Acipatos), e Eugênio Melo Ribeiro, então presidente da Fundação Cultural do Alto Paranaíba (Fucap), encabeçaram um ambicioso plano de transformação do Riviera em centro de lazer, entretenimento e atividades culturais. Com o projeto em mãos, procuraram o poder público local e a iniciativa privada. Entretanto, estes manifestaram não dispor de capital para levar adiante a idéia.

Anda assim, Eugênio sonhava comprar o local com recursos das leis de incentivo à cultura e transformá-lo num espaço cultural, além de compensar os seus proprietários, que mantinham o cinema muito mais por amor à arte do que por interesse comercial. “Mas, ao contrário do que diz a música, o sonho acabou”, diz Eugênio, que atravessou várias madrugadas no Riviera montando e desmontando iluminação e cenários ao som dos bailes do Patos Social, enquanto, nos bastidores, seus filhos dormiam em colchões improvisados sobre caixas de refletores.

"Nós éramos uma família e ali era a nossa casa", confirma César Roberto Ferreira, referindo-se ao local em que trabalhava desde 1980 e ao qual dedicava a maior parte do seu tempo.

Lembra-se, emocionado, da chegada da Semana da Criança, quando o Riviera ficava aberto o dia todo e o passe era livre para as escolas. Professoras acompanhavam os alunos – para muitos, a única oportunidade que tiveram na vida de entrar em um cinema. "O incêndio destruiu sonhos de muita gente", lamenta César.

Em seus anos de ouro, o Riviera estava entre as maiores e mais modernas casas do gênero do interior. O projeto e a tecnologia de ponta foram trazidos da Europa pelo líder político Virmondes Afonso de Castro, que também buscou em outros Estados construtoras à altura do empreendimento. Integrantes da orquestra sinfônica do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, ficaram maravilhados com o local, onde também se apresentaram personalidades como Roberto Carlos, Paulo Autran e Arthur Moreira Lima.

Aliás, Patos de Minas é sui generis também neste quesito: enquanto muitas cidades do mesmo porte nem sequer tinham uma sala, Patos chegou a comportar, durante quase uma década – nos anos 70s – três grandes cines ao mesmo tempo: Riviera, Garza e Olinta.

manoel@patoshoje.com.br

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