CINEMAS FORAM OBJETO de culto dos patenses. Os mais assíduos
os frequentavam praticamente todos os dias. Também eram ponto de encontro para
permuta de gibis e paqueras. No Cine Tupã, nos dias mais concorridos, as
crianças chegavam cedo às sessões de Flash Gordon, Tarzan, Zorro, Lassie, e se
acomodavam no chão após vender seus lugares a casais de namorados.
O empresário Mário Garcia Roza construiu o Cine Garza
(acrônimo de Garcia Roza) em 1960. Sete anos depois adquiriu o Cine Riviera, o
qual passou a integrar a Rede Cineminas, com salas em outras doze praças, como
João Pinheiro, Patrocínio, Bom Despacho e Itaúna.
Garza e Riviera (nome inspirado na região litoral do Mar
Mediterrâneo, no sul da França – país em que seu fundador fora criado – onde se
localiza Cannes, cidade do Festival Internacional do Cinema) traziam
programações diferenciadas. Este privilegiava filmes de arte, musicais e
clássicos. Já as exibições no Garza eram mais populares: Mazzaropi, filmes de
ação, faroestes e sagas bíblicas.
Durante a Semana Santa o comércio não ficava aberto, e da
zona rural vinham caravanas especialmente para assistir à chamada Vida de
Cristo. Marcos Garcia ajudava seu pai no Garza desde menino e se lembra de que
as paredes ficavam molhadas devido à concentração de fiéis que insistiam em
permanecer apinhados no hall e nos
corredores, aguardando sua vez. Sessões começavam às nove da manhã e seguiam
até meia-noite. As filas se formavam de madrugada e dobravam as esquinas.
Algumas senhoras se recusavam a ir embora ao término das
sessões. Agarradas aos seus terços, ajoelhavam-se diante das telas em adoração
às imagens sobrepostas. Para dar conta da demanda, os atendentes no barzinho se
revezavam em várias turmas e simplesmente jogavam o dinheiro atrás do balcão. O
piso ficava forrado de notas e moedas, só recolhidas ao final da confusão.
A projeção de um filme, dividido em rolos de seiscentos
metros, exigia grande habilidade, concentração e resistência física. O manuseio
ininterrupto das películas, afiadas como lâmina, fazia com que a ponta dos
dedos dos operadores tivesse aspecto de couro de rinoceronte. Era preciso o uso
de dois projetores alternadamente a fim de que o público, bastante exigente,
não percebesse os cortes. Nas roletas, agentes das distribuidoras fiscalizavam
todas as meias e inteiras entregues ao porteiro, contabilizavam cada centavo e
saíam das bilheterias carregando sacos contendo a maior parte da arrecadação.
Outras igrejas surgiram e os católicos que mantinham aquela
tradição foram desaparecendo. Não mais atingindo as severas metas de público
estabelecidas pela indústria, monopólio de judeus, aos poucos todas as unidades
da rede foram fechadas. Exceto o Riviera.
Na década de 80, seus 1.370 lugares foram reduzidos a 1.100
para ampliação do palco. Progressivamente, sessões de filmes cediam espaço para
palestras, shows musicais, peças de teatro, balés e até posse de prefeito.
Garcia Roza faleceu há três meses, aos 84 anos, sem concretizar o sonho de
rever as cortinas do Riviera se abrirem ao som de Rendez-vous 4, com Jean Michel Jarre.
manoel@patoshoje.com.br
