sábado, 31 de março de 2018

O apagar das luzes - III



CINEMAS FORAM OBJETO de culto dos patenses. Os mais assíduos os frequentavam praticamente todos os dias. Também eram ponto de encontro para permuta de gibis e paqueras. No Cine Tupã, nos dias mais concorridos, as crianças chegavam cedo às sessões de Flash Gordon, Tarzan, Zorro, Lassie, e se acomodavam no chão após vender seus lugares a casais de namorados.

O empresário Mário Garcia Roza construiu o Cine Garza (acrônimo de Garcia Roza) em 1960. Sete anos depois adquiriu o Cine Riviera, o qual passou a integrar a Rede Cineminas, com salas em outras doze praças, como João Pinheiro, Patrocínio, Bom Despacho e Itaúna.

Garza e Riviera (nome inspirado na região litoral do Mar Mediterrâneo, no sul da França – país em que seu fundador fora criado – onde se localiza Cannes, cidade do Festival Internacional do Cinema) traziam programações diferenciadas. Este privilegiava filmes de arte, musicais e clássicos. Já as exibições no Garza eram mais populares: Mazzaropi, filmes de ação, faroestes e sagas bíblicas.

Durante a Semana Santa o comércio não ficava aberto, e da zona rural vinham caravanas especialmente para assistir à chamada Vida de Cristo. Marcos Garcia ajudava seu pai no Garza desde menino e se lembra de que as paredes ficavam molhadas devido à concentração de fiéis que insistiam em permanecer apinhados no hall e nos corredores, aguardando sua vez. Sessões começavam às nove da manhã e seguiam até meia-noite. As filas se formavam de madrugada e dobravam as esquinas.

Algumas senhoras se recusavam a ir embora ao término das sessões. Agarradas aos seus terços, ajoelhavam-se diante das telas em adoração às imagens sobrepostas. Para dar conta da demanda, os atendentes no barzinho se revezavam em várias turmas e simplesmente jogavam o dinheiro atrás do balcão. O piso ficava forrado de notas e moedas, só recolhidas ao final da confusão.

A projeção de um filme, dividido em rolos de seiscentos metros, exigia grande habilidade, concentração e resistência física. O manuseio ininterrupto das películas, afiadas como lâmina, fazia com que a ponta dos dedos dos operadores tivesse aspecto de couro de rinoceronte. Era preciso o uso de dois projetores alternadamente a fim de que o público, bastante exigente, não percebesse os cortes. Nas roletas, agentes das distribuidoras fiscalizavam todas as meias e inteiras entregues ao porteiro, contabilizavam cada centavo e saíam das bilheterias carregando sacos contendo a maior parte da arrecadação.

Outras igrejas surgiram e os católicos que mantinham aquela tradição foram desaparecendo. Não mais atingindo as severas metas de público estabelecidas pela indústria, monopólio de judeus, aos poucos todas as unidades da rede foram fechadas. Exceto o Riviera.

Na década de 80, seus 1.370 lugares foram reduzidos a 1.100 para ampliação do palco. Progressivamente, sessões de filmes cediam espaço para palestras, shows musicais, peças de teatro, balés e até posse de prefeito. Garcia Roza faleceu há três meses, aos 84 anos, sem concretizar o sonho de rever as cortinas do Riviera se abrirem ao som de Rendez-vous 4, com Jean Michel Jarre.

manoel@patoshoje.com.br

O apagar das luzes - II




INSTINTIVAMENTE, ENY Rodrigues largou o que estava fazendo, pegou a bicicleta e partiu rumo ao Centro. Duas de suas filhas trabalhavam próximo ao Riviera e corria o temor de que o fogo se alastrasse para as lojas.

A professora encontrou as filhas em segurança, mas viu muitas pessoas desesperadas na porta do cinema e pensou no pior. Ficou surpresa ao descobrir que não choravam a perda de vidas humanas. O sentimento era em relação ao próprio cinema, que fazia parte de suas vidas e cuja existência significava muito para a comunidade.

O engenheiro Caio César Gonçalves, à época diretor da Associação Comercial (Acipatos), e Eugênio Melo Ribeiro, então presidente da Fundação Cultural do Alto Paranaíba (Fucap), encabeçaram um ambicioso plano de transformação do Riviera em centro de lazer, entretenimento e atividades culturais. Com o projeto em mãos, procuraram o poder público local e a iniciativa privada. Entretanto, estes manifestaram não dispor de capital para levar adiante a idéia.

Anda assim, Eugênio sonhava comprar o local com recursos das leis de incentivo à cultura e transformá-lo num espaço cultural, além de compensar os seus proprietários, que mantinham o cinema muito mais por amor à arte do que por interesse comercial. “Mas, ao contrário do que diz a música, o sonho acabou”, diz Eugênio, que atravessou várias madrugadas no Riviera montando e desmontando iluminação e cenários ao som dos bailes do Patos Social, enquanto, nos bastidores, seus filhos dormiam em colchões improvisados sobre caixas de refletores.

"Nós éramos uma família e ali era a nossa casa", confirma César Roberto Ferreira, referindo-se ao local em que trabalhava desde 1980 e ao qual dedicava a maior parte do seu tempo.

Lembra-se, emocionado, da chegada da Semana da Criança, quando o Riviera ficava aberto o dia todo e o passe era livre para as escolas. Professoras acompanhavam os alunos – para muitos, a única oportunidade que tiveram na vida de entrar em um cinema. "O incêndio destruiu sonhos de muita gente", lamenta César.

Em seus anos de ouro, o Riviera estava entre as maiores e mais modernas casas do gênero do interior. O projeto e a tecnologia de ponta foram trazidos da Europa pelo líder político Virmondes Afonso de Castro, que também buscou em outros Estados construtoras à altura do empreendimento. Integrantes da orquestra sinfônica do Palácio das Artes, de Belo Horizonte, ficaram maravilhados com o local, onde também se apresentaram personalidades como Roberto Carlos, Paulo Autran e Arthur Moreira Lima.

Aliás, Patos de Minas é sui generis também neste quesito: enquanto muitas cidades do mesmo porte nem sequer tinham uma sala, Patos chegou a comportar, durante quase uma década – nos anos 70s – três grandes cines ao mesmo tempo: Riviera, Garza e Olinta.

manoel@patoshoje.com.br

O apagar das luzes - I




HÁ DEZ ANOS, uma coluna de fumaça no centro de Patos de Minas quebra a tranquila rotina da população. A princípio, mesmo para espectadores que se aglomeram em volta do quarteirão, o foco do incêndio não está bem definido. Mas de outro ponto da cidade, ao olhar naquela direção e avistar a fumaça, o primeiro nome que vem à mente do fotógrafo José Marcos Gonçalves é o do Cine Riviera.

Devido aos eventos de finais de ano – como formaturas e espetáculos – dezembro era o mês em que o Riviera mais recebia público. Duas noites antes do desastre, a casa lotou durante um festival de dança, quando os riscos de uma falha no sistema elétrico (provável causa do acidente) é muito maior. E o dia todo, um domingo, ali permaneceram mais de mil pessoas ocupadas com os ensaios, muitas das quais eram crianças.

Mas no 15 de dezembro apenas três pessoas se encontravam no estabelecimento e nenhuma ficou ferida.

Os bombeiros agem rapidamente. A frente do prédio e a cabine de projeção foram salvas. Todo o restante, porém, – teto e paredes (revestidos de matéria altamente inflamável), palco, cortinas, carpete e poltronas –  é inteiramente consumido pelas chamas em menos de uma hora. 

Fotógrafo desde os doze anos, José Marcos frequentava o cinema de três a quatro vezes por semana, em geral após o trabalho. Como todo bom cinéfilo, apreciava não apenas os filmes, mas o ambiente, a acústica, a sala de bate-papo, o tradicional passeio na sorveteria antes das matinês de domingo e a ida à lanchonete na volta pra casa.

Chegava a assistir várias vezes ao mesmo filme. Uma das poucas exceções de que se lembra fora um épico, algo como “César, o rei de Roma”, cuja exibição durara seis horas, com intervalo de duas em duas. Mas assistira a "E o vento levou..." por QUATRO DIAS seguidos, mesmo sendo cerca de quatro horas por sessão. Afinal, películas em cores eram uma grande novidade.

Com o advento de videocassetes, DVDs e a expansão da internet e da pirataria, os cinemas foram perdendo espaço. As salas que não são fechadas ficam mais compactas. Subsistem encasteladas em locais onde há grande fluxo de pessoas, como shopping centers, sendo apenas mais um de seus itens de consumo.

O fenômeno é mundial. Nas capitais, os cinemas são vendidos e os imóveis transformados em templos religiosos. Junto com eles se foi a profissão de lanterninha e talvez uma época de mais romantismo, inocência e calor humano.

manoel@patoshoje.com.br